Collection Littéraire Lagarde & Michard Parte I: Poesia
No meu segundo dia em Bruxelas, andando em direção ao centro, notei um grande fuzuê perto da Praça Flagey, algum evento estava aparentemente acontecendo. E era um não tão comum: a grande feira das pulgas ou le marché aux puces. Recomendo muito ir a esses mercados — são muito tradicionais na Europa —, especialmente se você for estrangeiro, pode até ser que nada lhe interesse, mas o motivo não é exatamente comprar. Essas lojinhas são, na verdade, mini-museus: pseudo-obras de arte que se fingem importantes, geringonças representando o estado da arte da tecnologia da época, revistas pornôs demonstrando os padrões cômicos de beleza passados — muita gente peluda para lá e para cá nas belgas e francesas — e livros que, às vezes, são bastante únicos.
A coletânea sobre a qual farei alguns posts aqui não é muito única na realidade, é basicamente um livro instrutivo para colegiais franceses sobre sua própria literatura. Porém, para mim, curioso estrangeiro, encontrar um compêndio desses, por somente um euro!, foi um achado e tanto. É muito entretenimento concentrado: os autores apenas citam trechos marcantes na coleção e é por isso que este foi um dos únicos livros meus que tive o prazer de consultar diversas vezes.
Os próximos artigos que redigirei serão traduções de alguns dos textos que mais gostei. Os temas principais são poesia, teatro e romance, no entanto, devido ao tamanho e número, evidentemente que não serão somente três posts.
Neste primeiro, tratarei brevemente da poesia do final do século XIX e começo do XX. Já adianto que preferi não transladar o significado ou o ritmo e rimas dos versos, dado que não tenho tais habilidades e nem o interesse ou tempo; as traduções aqui serão somente literais. Portanto, obviamente, muito dos sons se perdeu — por exemplo, no último verso de Vœu, temos que Sourdre une source foi, infelizmente, reduzido a somente “Surda uma fonte”, um esvanecimento quase trágico —, mas creio que isso melhorará nos próximos textos, já que este será um dos únicos sobre poesia.
Anna de Noailles (1876-1933), filha de um príncipe romeno e uma pianista grega, foi uma poetisa principalmente da língua francesa, apesar de falar também, além do próprio romeno, alemão e inglês. Muito influente — e assediada por diversos artistas — em sua época, patrocinava reuniões regulares em sua residência, que congregavam os mais renomados nomes da época: Marcel Proust, André Gide, Francis James, Pierre Loti, Frédéric Mistral, Paul Claudel, dentre outros. Ao longo de sua vida, criou diversos prêmios e incentivos para uma maior participação feminina na vida literária. Ela foi a primeira mulher a receber a distinção de Comandante da Legião de Honra da França e a entrar para a Academia Real de Língua e Literatura Francesas da Bélgica. Fique agora com o texto encontrado na Coleção.
La plus significative de toutes ces poétesses a été Anna de Noailles, célèbre dès Le Cœur innombrable (1901). Les honneurs auxquels on a songé pour elle, mais vainement (Académie Française) et ceux moins exclusifs, qu’elle a reçus (Académie Royale de Belgique) révèlent la place qu’elle a réellement occupée. Brancovan par la naissance, portant en elle la somptuosité orientale, mais française d’âme et de culture, riche, parée de grandes passions et de grandes amitiés, elle a sans cesse repris l’affirmation de son Offrande à la Nature :
A mais significativa de todas as poetisas foi Anna de Noailles, célebre desde O Coração Incontável (1901). As honras que se sonharam para ela, mas em vão (Academia Francesa), e aquelas menos exclusivas, que ela recebeu (Academia Real da Bélgica) revelam o lugar que ela realmente ocupou. Brancovan de nascença, trazendo em si a suntuosidade oriental, mas francesa de alma e de cultura, rica, ornada de grandes paixões e de grandes amizades, ela, sem cessar, demonstrava o que afirmou em sua Oferenda à Natureza:
Je me suis appuyé à la beauté du Monde
Et j’ai tenu l’odeur des saisons dans mes mains.
Debrucei-me sobre a beleza do Mundo
E segurei nas mãos o aroma das estações.
L’empreinte ou “A Marca”, em Le Cœur Innombrable ou “O Coração Incontável”:
Je m’appuierai si bien et si fort à la vie,
D’une si rude étreinte et d’un tel serrement
Qu’avant que la douceur du jour me soit ravie
Elle s’échauffera de mon enlacement.
La mer, abondamment sur le monde étalée,
Gardera dans la route errante de son eau
Le goût de ma douleur qui est âcre et salée
Et sur les jours mouvants roule comme un bateau.
Je laisserai de moi dans le pli des collines
La chaleur de mes yeux qui les ont vu fleurir
Et la cigale assise aux branches de l’épine
Fera crier le cri strident de mon désir.
Dans les champs printaniers la verdure nouvelle
Et le gazon touffu sur les bords des fossés
Sentiront palpiter et fuir comme des ailes
Les ombres de me mains qui les ont tant pressés.
La nature qui fut ma joie et mon domaine
Respirera dans l’air ma persistante odeur
Et sur l’abattement de la tristesse humaine
Je laisserai la forme unique de mon cœur.
Eu me agarrarei tão certa e fortemente à vida,
Em um tão rude e apertado abraço
Que, antes que a doçura do dia me faça contente,
Ela se aquecerá com meu enlaço.
O mar, abundantemente espalhado sobre o mundo,
Guardará na rota errante de suas águas
O gosto de minha dor que é acre e salgada
E sobre os dias seguidos desliza como um barco.
Eu deixarei nas dobras das colinas
O calor de meus olhos que as viram florescer
E a cigarra alojada nos galhos espinhosos
Fará gritar o grito estridente do meu desejo.
Nos campos de primavera a verdura nova
E a grama em tufos sobre as bordas dos fossos
Sentirão palpitar e fugir como aladas
As sombras das minhas mãos que as haviam tanto pressionado.
A natureza que foi minha alegria e meu domínio
Respirará no ar meu persistente aroma
E sobre o abatimento da tristeza humana
Eu deixarei a forma única do meu coração.
Henri de Régnier (1864-1936) foi, sobretudo, poeta, um dos maiores nomes do movimento simbolista. Uma frase famosa atribuída a ele e que figura, inclusive, no jogo Dragon’s Dogma (2012), é: le plaisir délicieux et toujours nouveau d’une occupation inutile ou “o prazer delicioso e sempre novo de uma ocupação inútil”, originalmente publicada nas Valsas Nobres e Sentimentais de Maurice Ravel. Segue a curta descrição dentro da Coleção:
La facile et discrète existence d’Henri de Régnier n’a d’autre histoire que celle de son œuvre, partagée entre la poésie et le roman « artiste » – chez lui, toujours délicat et mélancolique (Les Vacances d’un Jeune Homme sage) mais surtout paré des grâces élégantes et voluptueuses du XVIIe ou du XVIIIe Siècle (Le Bon Plaisir, La Double Maîtresse). Après des débuts presque parnassiens (Les Lendemains, 1885) et une longue imprégnation symboliste, il exprime, à la fin du siècle, un art poétique très personnel.
A fácil e discreta existência de Henri de Régnier não tem outra história senão a de sua obra, compartilhada pela poesia e o romance “artista” — com ele, sempre delicado e melancólico (As Férias de um Jovem Sábio), mas, sobretudo, adornado das graças elegantes e voluptuosas do século XVII ou do XVIII (O Bom Prazer, A Amante Dupla). Após alguns primeiros passos quase parnasianos (Os Dias Seguintes, 1885) e uma longa impregnação simbolista, ele exprime, no final do século, uma arte poética muito característica.
Un petit roseau m’a suffi
Pour faire frémir l’herbe haute
Et tout le pré
Et les doux saules
Et le ruisseau qui chante aussi ;
Un petit roseau m’a suffi
A faire chanter la forêt…
(Les Jeux rustiques et divins, 1897)
J’ai feint que les Dieux m’aient parlé ;
Celui-là ruisselant d’algues et d’eau,
Cet autre lourd de grappes et de blé,
Cet autre ailé,
Farouche et beau
En sa stature de chair nue,
Et celui-ci toujours voilé…
(Les Médailles d’Argile, 1900)
Um pequeno galho me bastou
Para fazer estremecer a relva alta
E todo o prado
E os doces salgueiros
E o riacho que canta também;
Um pequeno galho me bastou
Para fazer cantar a floresta…
(Os Jogos rústicos e divinos, 1897)
Eu fingi que os Deuses haviam falado comigo;
Aquele, vertente d’algas e d’água,
Este outro denso de cachos e de trigo,
Este outro alado,
Tímido e belo
Em sua estatura de carne nua,
E este aqui sempre oculto…
(As Medalhas de Argila, 1900)
Descrição de Vœu ou “Voto” em Les Médailles d’Argile ou “As Medalhas de Argila”:
Outre la discrétion et la ferveur du chant, on trouvera ici un exemple de ce que le vers français a pu gagner en possibilités musicales. Le système de rimes régulières s’y dilue au bénéfice de certaines dominantes pour laisser le pas aux effets de rythme.
Além da discrição e fervor do canto, encontraremos aqui um exemplo do que o verso francês pôde ganhar em possibilidades musicais. O sistema de rimas regulares se dilui em benefício de certas dominantes para dar o protagonismo aos efeitos do ritmo.
Je voudrais pour tes yeux la plaine
Et une forêt verte et rousse,
Lointaine
Et douce
A l’horizon sous un ciel clair,
Ou des collines aux belles lignes
Flexibles et lentes et vaporeuses
Et qui sembleraient fondre en la douceur de l’air,
Ou des collines
Ou la forêt…
Je voudrais
Que tu entendes
Forte, vaste, profonde et tendre,
La grande voix sourde de la mer
Qui se lamente
Comme l’amour ;
Et, par instant, tout près de toi,
Dans l’intervalle,
Que tu entendes,
Tout près de toi,
Une colombe
Dans le silence,
Et faible et douce
Comme l’amour,
Un peu dans l’ombre,
Que tu entendes
Sourdre une source.
Je voudrais des fleurs pour tes mains,
Et pour tes pas
Un petit sentier d’herbe et de sable,
Qui monte un peu et qui descende
Et tourne et semble
S’en aller au fond du silence,
Un tout petit sentier de sable
Où marqueraient un peu tes pas,
Nos pas
Ensemble !
Eu gostaria para os teus olhos a planície,
E uma floresta verde e vermelha,
Longínqua
E doce
No horizonte sob um céu claro,
Ou colinas com belas linhas
Flexíveis e lentas e vaporosas
E que pareceriam se desvanecer na doçura aérea,
Ou colinas
Ou a floresta…
Eu gostaria
Que escutasses
Alta, vasta, profunda e tenra,
A grande voz surda do mar
Que se lamenta
Como o amor;
E, a cada instante, pertinho de ti,
No intervalo,
Que escutasses,
Pertinho de ti
Uma pomba
No silêncio,
E fraco e doce
Como o amor,
Um pouco na sombra,
Que escutasses
Surda uma fonte.
Eu gostaria de flores para tuas mãos,
E para teus passos
Uma pequena trilha de grama e areia,
Que sobe um pouco e que desce
E vira e parece
Ir-se embora no silêncio profundo,
Uma pequenina trilha de areia
Onde teus passos ficariam levemente marcados,
Nossos passos
Juntos!