Copa Samsung 2017
Hoje, gostaria de falar um pouco sobre a minha experiência na Copa Samsung.
Quando estava estudando na Universidade Myongji, recebia convites, às vezes, para algum evento da BIBA — Blackie’s International Baduk Academy. Certa vez, recebi um me oferecendo uma estadia na Copa Samsung. Estranhei bastante: o que seria uma estadia na Copa Samsung? Como é que eu poderia pagar por algo assim?
Pois não é que eu poderia ir? Ao que parece, a Samsung gostaria de incentivar as pessoas a ir ver o torneio pois era quase que uma questão de nacionalismo, especialmente considerando que havia somente um coreano com chances de ir para a final. Dado o tamanho colossal da corporação, eventos como este equivaleriam a uns trocados e, assim, eles ofereciam descontos elevados para estadias em suas instalações. Diga-se de passagem que tal local era de dar inveja a muitos centros olímpicos: quadras de basquete e vôlei impecáveis, diversos restaurantes, salão de jogos, mercadinho interno e quartos equivalentes a hotel quatro estrelas, além de ela ser completamente vedada, proporcionando, assim, uma temperatura totalmente condicionada, muito mais agradável do que a neve do lado de fora.
Pois não é que eu não pude ir? Naquele momento, eu tinha que resolver uns problemas na faculdade e assistir a algumas aulas, portanto, minha visita à Samsung teria que ser adiada infelizmente — mais tarde, a professora cancelou a aula principal, ou seja, se eu tivesse ido, não perderia nada.
Só tive a oportunidade de ir ao torneio quase um mês depois, nas finais.
Depois de muita ponderação sobre o meu destino na Coréia, tomei a decisão de desistir de meu mestrado — em suma, achei que não valia a pena — e, como havia uns 45 dias entre essa desistência e o meu voo de volta, escolhi me mudar para a BIBA e vivenciar em primeira mão como seria a rotina de estudos integrais de Go — na universidade, eu estudava não só o jogo mas também assuntos relacionados. Não foi uma mudança fácil, abandonei um plano que havia traçado ao longo de um ano explicitamente e, implicitamente, há, pelo menos, quatro. Mas não me arrependo — enfim, voltarei a discutir o assunto uma outra hora.
Perto do início de dezembro, Blackie e Diana (os profesores titulares da BIBA) me informaram que eu teria a possibilidade de ir às finais, desde que pagasse uma pequena taxa extra. Achei que valia a pena, e confesso que me impressionei muito com o que iria conhecer. Vale ressaltar que, além da infraestrutura já descrita, fomos recepcionados muito bem e tratados de maneira homogênea em relação ao resto participantes do evento, algo difícil de ocorrer, já que éramos a maioria estrangeiros.
Nossa rotina rotina diária era: estudar os jogos pela manhã ao mesmo tempo que os finalistas os jogavam; pela tarde, íamos à sessão de comentários feita por algum profissional coreano; e, à noite, jogávamos algumas partidas treino ou, para relaxar, assistíamos à TV ou jogávamos Blokus, um jogo bastante similar ao Go em princípios, muito divertido de se jogar em grupo (ainda farei um post sobre ele).
No primeiro jogo da série final, houve um momento bastante particular para a partida: a jogada 84. Na sala de estudos, quase que unanimamente, todos os jogadores de diversos níveis esperavam que Gu Zihao conectasse sua pedra em atari. Apesar da má forma, seus grupos estariam conectados e seguros além de tal jogada valer muitos pontos. Contudo, ele escolheu simplesmente uma melhor forma e continuar a explorar os problemas das pretas no resto do tabuleiro. Infelizmente, os ataques não renderam muitos pontos e as brancas acabaram por não ter território suficiente no final.
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Nesse dia, fomos convidados a jogar uma partida contra outra escola de Go, quase que lutando pela honra de Blackie :P. Fazendo jus à tradição, nossos oponentes eram todas criancinhas, que possuíam nossos níveis aproximadamente, variando de 1 a 7 dan Tygem. O meu adversário era um pitoco 3d e, à época, eu estava beirando os 5d (meu nível oscilava muito, cheguei a ganhar online de 6d e também ter uma partida praticamente vencida contra um 7d) na verdade, mas, como estava meio que sem paciência, fui conivente e aceitei a partida sem compensação. Jogar com coreaninhos acostumados ao Tygem é sempre algo que não me agrada muito, eles costumam criar muitos grupos e a partida pode se complicar muito, e foi exatamente o que aconteceu: eu estava muito atrás em pontos mas ele tinha um dragão enorme que eu, com um bocado de sorte, acabei por matar, encerrando, assim, a partida. Meu jogo serviu como desempate e Blackie pôde sair um pouco mais feliz.
Mais tarde, no mesmo dia, fomos para a quadra, onde se jogava a versão coreana bizarra de futevôlei — apesar de dar para o gasto, fiz feio ao demonstrar que sou um brasileiro sem muita habilidade futebolística —, além de basquete e ping pong. Pude me redimir com o baixinho que abati algumas horas antes ao fazer parceria em um esporte no qual possuo mais razoável habilidade, o basquete. Ele tinha certa dificuldade motora em uma das pernas, e foi muito único vê-lo tão alegre ao vencer, ele até tentou me descrever algo em coreano, o que tentei responder com universais caretas de completa incompreensão.
O dia seguinte foi um divisor de águas para o torneio, algo muito bizarro aconteceu na partida: um erro em um duplo-ko (jogada 206).
O comentarista, desta vez, era Kim Jiseok, um renomado campeão mundial coreano cujas ferozes jogadas sempre me cativaram a ponto de torná-lo meu jogador predileto da atualidade e, talvez, de todos os tempos. Ele nos contou uma história cômica entre ele e Tang Weixing: certa vez, Jiseok, cansado em uma partida extensa, resolve retirar do tabuleiro pedras que ele pensava não terem mais liberdades, uma jogada obviamente ilegal e que renderia uma derrota automática e extremamente constrangedora; no entanto, Weixing não aceitou vencer daquela maneira e a partida continuou após uma breve e polida correção sobre a jogada de Jiseok (não foi citado quem ganhou).
Pouco após tal anedota, Kim Jiseok se espantou completamente ao ver o que acontecera no tabuleiro. Gu Zihao, percebendo que estava em uma posição desvantajosa, resolve arriscar a situação de um grupo fraco e o foco vira o dragão enorme no meio do tabuleiro, mas isso não foi o que surpreendeu nosso excepcional comentarista: na verdade, surgiu um duplo-ko e Tang Weixing conectou um deles! Para quem não sabe, é preciso um esclarecimento evidentemente: em um duplo-ko, aquele que cerca tem a garantia de que ficará com pelo menos um dos lados do grupo — qualquer um deles era suficiente para a vitória —, pois não há como o adversário fechar ambos ao mesmo tempo. Todavia, uma vez fechado um dos kos que compõem o duplo-ko, teremos um ko simples, o que oferece uma chance de resgate ao dragão. Após tal erro indigno de um já campeão mundial como Tang Weixing, Kim Jiseok perdeu totalmente o foco e se tornou um mero assistente, presenciando uma virada completamente inesperada. Felizmente, não foi o suficiente para que ele pulasse a sessão de autógrafos :).
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A segunda partida alterou bastante os ânimos dos jogadores, que, na primeira partida, haviam até jantado juntos.
Por fim, nosso grupo não pôde dar muita atenção à última partida, pois tivemos que sair às pressas para levar Blackie à sua partida pela eliminatória da GS Caltex, um torneio nacional coreano, mas, pelo o que acompanhamos pelos aplicativos, ela foi de altíssimo nível, finalmente algo digno do calibre dos dois jogadores. Ao vencer por 2-1, Gu Zihao venceu a Samsung Cup sobre seu conterrâneo veterano e se estabeleceu definitivamente como um dos maiores jogadores da atualidade.
A estadia e os jogos nos proporcionaram uma experiência única, que eu recomendo fortemente a qualquer um que esteja por lá. Caso queiram mais informações, contatem Diana Koszegui via Facebook ou pelo próprio site da BIBA.