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CLL&M — Jean Jaurès, a Esquerda Francesa do Final do Século XIX

É bastante difícil discutir Direita e Esquerda sem ser fortemente criticado por um dos lados. Mesmo assim, exporei um pouco da minha compreensão aqui.

Presumo que a maioria das pessoas, depois de conversar comigo, pensará que sou esquerdista; entretanto, asseguro que sou somente ponderado. Como já discuti em meu , minha posição se baseia em fatos: até mesmo o FMI vem adotando algumas diretrizes de esquerda, e a economia mundial beirará o colapso em breve se não balancearmos melhor as nossas abordagens econômicas. Tento basear minhas reflexões no conceito de dialética, termo grego para uma convergência a um meio termo em um diálogo entre extremos.

Nessa toada, para esclarecer ainda mais alguns conceitos, acho que vale a pena discutir um pouco a nossa percepção sobre socialismo — um termo cheio de desinformação e definições quase contraditórias por diferentes filósofos —, especialmente aquilo que vem à mente quando alguém menciona Karl Marx. O que Marx sonhava, certamente um pouco utópico, vide o histórico de atrocidades a humanidade, era que, conforme as máquinas e a automatização substituísse o homem nas tarefas do dia a dia, o ser humano iria se libertar finalmente da escravidão que é o trabalho. Considerava ele trabalho não como uma atividade prazerosa — Marx tomava como referencial o trabalho árduo dos operários, que pouco agrega de valor à vida do trabalhador; certamente, há aqueles cujo trabalho é prazeroso, mas estes comporiam uma minoria —, mas uma prisão imperativa para nossa sobrevivência. Para o filósofo e jornalista, o estágio final dessa escravatura seria rompido quando tudo fosse automatizado e o homem pudesse se dedicar àquilo que bem entendesse, sem precisar se subjugar a patrões ou sofrer com as instabilidades do sistema econômico — Marx já compreendia que as crises capitalistas eram de excesso e cíclicas —: a suposta verdadeira liberdade, não simplesmente a de pensamento ou de locomoção. Veja que as ideias de Marx já — e talvez inesperadamente — até possuem um eco implícito nos países mais desenvolvidos do mundo. Na Suécia e Noruega, as horas de trabalho são extremamente reduzidas e um salário base é garantido até mesmo aos desempregados, assim, as pessoas conseguem se dedicar mais ao lazer e às buscas pessoais.

Um dos motivos que me incentivaram a revisitar as raízes do socialismo é o fato de que, talvez, finalmente, tenhamos a chance de experienciar tal utopia devido aos avanços obtidos nos últimos tempos na área de inteligência artificial. Estamos cada vez mais próximos de substituir a quase totalidade das funções do trabalho, até mesmo as mais complexas intelectualmente. Se isso ocorrer, haverá dois cenários muito prováveis: o primeiro seria a utopia de Marx, em que os benefícios da extrema automatização seriam repartidos quase que igualmente na sociedade, e seríamos, enfim, libertados da escravidão trabalhista; e o segundo, consoante a extrema desigualdade no mundo atual, seria uma completa distopia, em que a automatização somente concentraria ainda mais o capital nas mãos de poucos.

O futuro é evidentemente incerto e deixo que o leitor imagine o que bem entender. Mas, nesse ínterim, fique com um trecho da Coleção Literária Lagarde & Michard sobre Jean Jaurès, um influente político da esquerda francesa do final do século XIX e início do XX.

Jean Jaurès, aproximadamente em 1904.
Jean Jaurès discursa para 150,000 pessoas, reunidas, em 1903, para protestar contra uma lei que impunha o serviço militar obrigatório por, pelo menos, 3 anos.

Normalien et agrégé de philosophie, Jean Jaurès fut un orateur de grande classe et un animateur politique ; il fonda, avec Jules Guesde, le Parti Socialiste Unifié (1906). Héritier du « socialisme humaniste » du XIXe siècle, il rêve de concilier cette tradition avec le réalisme historique et économique de Marx et de Engels, ce qui le conduit à être plutôt un « réformiste » qu’un révolutionnaire: il pense en effet que l’idée de justice, incarnée selon lui dans les progrès de la démocratie politique et sociale, est capable de fonder un humanisme universel et un idéal social commun à l’humanité tout entière, au-delà des antagonismes de classes et de nations. Il rejoint ainsi une pensée généreuse qui était déjà celle de Michelet, dont il rappelle la fougue (cf. XIXe Siècle, p. 361) et dont le rapproche une certaine parenté littéraire. Son éloquence lui assura une grande influence au Parlement et dans la nation. Sa personnalité a profondément marqué le socialisme français, et le rayonnement de sa pensée n’a pas cessé de se manifester dans la vie politique de notre pays. Pacifiste convaincu, Jaurès, dans les années qui précèdent la Grande Guerre, se consacre à la défense de la paix en travaillant à un rapprochement avec les socialistes allemands ; mais il meurt assassiné en juillet 1914.

Aluno de Escola Normal agregado à filosofia, Jean Jaurrès foi orador de alto nível e um animador político; ele fundou, juntamente com Jules Guesde, o Partido Socialista Unificado (1906). Herdeiro do “socialismo humanista” do século XIX, ele sonhava em conciliar essa tradição com o realismo histórico e econômico de Marx e Engels, o que o conduziu a ser muito mais um “reformista” do que um revolucionário: ele pensa, na verdade, que a ideia de justiça, encarnada, segundo ele, no progresso da democracia política e social, é capaz de fundar um humanismo universal e um ideal social comum para a humanidade inteira, para além dos antagonismos de classes e de nações. Ele se junta, assim, a um pensamento generoso que era já o de Michelet, de quem ele lembra o entusiasmo (cf. Século XIX, p. 361) e que o aproxima de ter um certo parentesco literário. Sua eloquência lhe assegurou uma grande influência no Parlamento e na nação. Sua personalidade marcou profundamente o socialismo francês, e o brilho de seus pensamentos não deixou de se manifestar na vida política de nosso país. Pacifista convicto, Jaurès, nos anos que precedem a Grande Guerra, se dedica à defesa da paz, trabalhando por uma aproximação junto aos socialistas alemães; mas ele morre assassinado em julho de 1914.

Dans son Introduction à l’Histoire Socialiste, Jaurès développe l’essentiel de la pensée qui s’exprime ailleurs dans ses discours politiques. Et c’est au nom d’un humanisme universel qu’il propose un dépassement du déterminisme historique et du réalisme économique.

Em sua introdução à História Socialista, Jaurès desenvolve o essencial do pensamento que se exprime, inclusive, em seus discursos políticos. E é em nome do humanismo universal que ele propõe o desvincelhamento do determinismo histórico e do realismo econômico.

Quel que soit le rapport de l’âme humaine, en ses rêves même les plus audacieux ou les plus subtils, avec le système économique et social, elle va au-delà du milieu humain, dans l’immense milieu cosmique. Et le contact de l’univers fait vibrer en elle des forces mystérieuses e profondes, forces de l’éternelle vie mouvante qui précéda les sociétés humaines et les dépassera. Donc, autant il serait vain et faux de nier la dépendance de la pensée et du rêve à l’égard du système économique et de formes précises de la production, autant il serait puéril et grossier d’expliquer sommairement le mouvement de la pensée humaine par la seule évolution des formes économiques. Très souvent l’esprit de l’homme s’appuie sur le système social pour le dépasser et lui résister ; entre l’esprit individuel et le pouvoir social il y a ainsi tout à la fois solidarité et conflit. […]

Qual seja a relação da alma humana, mesmo em seus sonhos mais audaciosos ou mais sutis, com o sistema econômico e social, ela vai além do meio humano, para o meio cósmico. E o contato com o universo faz vibrar nela forças misteriosas e profundas, forças da eterna vida em movimento que precedeu as sociedades humanas e as ultrapassará. Assim, tanto será vão e falso negar a dependência do pensamento e do sonho sob o prisma do sistema econômico e das formas precisas da produção, quanto pueril e grosseiro explicar sumariamente o movimento do pensamento humano por somente a evolução das formas econômicas. Muito frequentemente, o espírito do homem se apoia sobre o sistema social para ultrapassá-lo e resisti-lo; entre o espírito individual e o poder social, há, assim, ao mesmo tempo, solidariedade e conflito. […]

Il nous plaira, à travers l’évolution à demi mécanique des formes économiques et sociales, de faire sentir toujours cette haute dignité de l’esprit libre, affranchi de l’humanité elle-même par l’éternel univers. Les plus intransigeants des théoriciens marxistes ne sauraient nous le reprocher. Marx, en une page admirable, a déclaré que jusqu’ici les sociétés humaines n’avaient été gouvernés que par la fatalité, par l’aveugle mouvement des formes économiques ; les institutions, les idées n’ont pas été l’œuvre consciente de l’homme libre, mais le reflet de l’inconsciente vie sociale dans le cerveau humain. Nous ne sommes encore, selon Marx, que dans la préhistoire. L’histoire humaine ne commencera véritablement que lorsque l’homme, échappant enfin à la tyrannie des forces inconscientes, gouvernera par sa raison et sa volonté la production elle-même. Alors son esprit ne subira plus le despotisme des formes économiques créées et dirigées par lui, et c’est d’un regard libre et immédiat qu’il contemplera l’univers. Marx entrevoit donc une période de pleine liberté intellectuelle où la pensée humaine, n’étant plus déformée par les servitudes économiques, ne déformera pas le monde. Mais, à coup sûr, Marx ne conteste pas que déjà, dans les ténèbres de la période inconsciente, de hauts esprits se soient élevés à la liberté ; par eux l’humanité se prépare et s’annonce. C’est à nous de recueillir ces premières manifestations de la vie de l’esprit : elles nous permettent de pressentir la grande vie ardente et libre de l’humanité communiste, qui, affranchie de tout servage, s’appropriera l’univers par la science, l’action et le rêve. C’est comme le premier frisson qui dans la forêt humaine n’émeut encore que quelques feuilles mais qui annonce les grands souffles prochains et les vastes ébranlements.

Ser-nos-á benéfico, através da evolução meio mecânica das formas econômicas e sociais, sentir sempre esta elevada dignidade do espírito livre, libertado da própria humanidade pelo eterno universo. O mais intransigente dos teóricos marxistas não nos saberia censurar. Marx, em uma página admirável, declarou que, até aqui, as sociedades humanas foram governadas apenas pela fatalidade, pelo cego movimento das formas econômicas; as instituições, as ideias não foram obra consciente do homem livre, mas o reflexo da inconsciente vida social no cérebro humano. Nós estamos ainda, segundo Marx, apenas na pré-história. A história humana começará verdadeiramente apenas quando o homem, escapando enfim da tirania das forças inconscientes, governará por sua razão e sua vontade a própria produção. Então, seu espírito não sofrerá mais o despotismo das formas econômicas criadas e dirigidas por ele, e, com um olhar livre e imediato, ele contemplará o universo. Marx entreviu, assim, um período de plena liberdade intelectual, onde o pensamento humano, não estando mais deformado pelas servidões econômicas, não deformará mais o mundo. Mas, seguramente, Marx não contesta que já, dentro das trevas do período inconsciente, elevados espíritos sejam educados para a liberdade; através deles, a humanidade se prepara e se anuncia. Cabe a nós acolher essas primeiras manifestações da vida do espírito: elas nos permetem pressentir a grande vida ardente e livre da humanidade comunista, que, liberta de toda servidão, apropriar-se-á do universo pela ciência, pela ação e pelo sonho. É como o primeiro arrepio que, na floresta humana, emociona ainda apenas algumas folhas, mas que anuncia as próximas grandes rajadas e os vastos tremores.

Aussi notre interprétation de l’histoire sera-t-elle à la fois matérialiste avec Marx et mystique avec Michelet. […]

Também nossa interpretação da história será ao mesmo tempo materialista com Marx e mística com Michelet. […]

Ce n’est pas seulement par la force des choses que s’accomplira la Révolution sociale. C’est par la force des hommes, par l’énergie des consciences et des volontés. L’histoire ne dispensera jamais les hommes de la vaillance et de la noblesse individuelle… Nous ne sourions pas des hommes de la Révolution qui lisaient Vies de Plutarque ; à coup sûr, les beaux élans d’énergie intérieure qu’ils suscitaient ainsi en eux changeaient peu de chose à la marche des événements. Mais, du moins, ils restaient debout dans la tempête, ils ne montraient pas, sous l’éclair des grands orages, des figures décomposées par la peur. Et si la passion de la gloire animait en eux la passion de la liberté, ou le courage du combat, nul n’osera leur en faire grief.

Não é somente pela força das circunstâncias que se alcançará a Revolução social. É pela força dos homens, pela energia das consciências e das vontades. A história não dispensará jamais os homens dos valores e da nobreza invidual… Nós não seremos homens da Revolução que liam Vidas, de Plutarco; certamente, os belos impulsos de energia interior que eles suscitavam, dessa maneira, em si mesmos mudavam pouca coisa em relação ao curso dos acontecimentos. Mas, ao menos, eles permaneciam de pé na tempestade, não demonstravam, sob os relâmpagos das intempéries, figuras decompostas pelo medo. E se a paixão pela glória lhes animava a paixão pela liberdade, ou a coragem do combate, ninguém lhes ousará criticar.

Charge símbolo do Centro Nacional e Museu Jean Jaurès em Castres, na província de Tarn, pela qual o orador foi deputado durante sua carreira política.