A Insuficiência da Direita (e, por consequência, da Esquerda?)
Insuficiência relacionada a quê? Poderia ser em relação a diversos aspectos, no entanto, esta discussão será restrita a um critério que costuma beneficiar as nações no âmbito geral: o crescimento econômico. Não sejamos ingênuos de declarar que crescimento econômico implica necessariamente progresso absoluto ou felicidade da população, mas, estatisticamente, observa-se que ele se correlaciona consideravelmente com uma diminuição das mazelas que afligem o povo.
Para alterar a direção da economia, tanto a Direita quanto a Esquerda possuem inúmeros mecanismos, porém a essência gira em torno da questão fundamental de distribuição do capital. A Esquerda defende, quase sempre, uma explícita e forçada redistribuição de renda, que se manifesta, também quase sempre, através de políticas governamentais; enquanto que a Direita defende o oposto, uma ausência de tais políticas, munindo-se nos argumentos de que a economia teria mecanismos de autorregulação e que artificiais controles sobre ela causariam um funcionamento anômalo e ineficiente. Tal retórica liberalista tem por base obras de filósofos e economistas importantes como Adam Smith e Friedrich Hayek, mas será que um mercado liberalizado seria realmente a melhor via econômica?
O que se tem visto nos últimos talvez 40 anos é que não — os filósofos do passado simplificaram demasiado a realidade; assim como abandonamos as ideias errôneas dos gregos antigos sobre a física, por exemplo, devemos fazê-lo com as dos mais recentes filósofos também. As duas principais evidências que atestam essas excessivas simplificações são duas estatísticas extremamente importantes: a de crescimento do PIB mundial e a de concentração de renda.
Conforme dados do gráfico fornecido pelo site do Banco Mundial, pode-se concluir que as políticas neoliberalistas amplamente implementadas a partir da década de 1970 — facilitadas pela e em conjunto com a globalização — fracassaram completamente no critério de manter ou aumentar o crescimento mundial — com menção honrosa ao único ponto negativo do gráfico, graças à quase efetivamente nula regulação do mercado de ações dos EUA (e, em geral, mundial) pouco antes de 2008.
A segunda estatística é, contudo, mais relevante e assustadora. Segundo o Fórum Econômico Mundial, desde 2015, o planeta atingiu a expressiva marca de que pelo menos 99% de toda a riqueza do globo concentrar-se-á doravante nas mãos de somente 1% da população, com o pequeníssimo detalhe de que a metade mais pobre detém, hoje, menos de 0,7%. Ora, mas, apesar de tal estatística ser realmente algo bastante negativo, qual a sua relação com a economia? De maneira simples, essa díspare distribuição de riqueza acaba por diminuir drasticamente o mercado consumidor mundial, isto é, sem compra e venda, o capitalismo não funciona.
Esses últimos dados fundamentam o raciocínio por trás do gráfico que sintetiza a insuficiência da Esquerda e da Direita como diretores econômicos: o de crescimento econômico vs desigualdade social. Sua construção demorou algum tempo para se assentar entre os economistas, mas sua lógica é bastante simples.
Imaginemos, primeiro, uma sociedade em que toda a renda é concentrada
nas mãos de pouquíssimas pessoas — algo que relembra os tempos
medievais —, não é muito difícil concluir que o crescimento da
economia seria bem próximo de nulo, já que o mecanismo de compra e venda
beiraria a inexistência. Agora, foquemos no outro extremo do gráfico,
uma situação em que a igualdade econômica seria plena e absoluta: é
intuitivo que não haveria, também, muito avanço da economia, visto que a
ausência de meritocracia não recompensaria o esforço acima da média de
nenhum indivíduo — veja que, nesse cenário, ainda haveria algum
crescimento, pois há, certo, indivíduos que causam progresso porque
simplesmente gostam do que fazem, não necessitando de futuros benefícios
extras
À medida que implementamos a meritocracia em ambos os extremos, seja por
recompensar mais igualitária ou desigualmente, o mecanismo de compra e
venda se reativa, e o crescimento econômico, consequentemente, começa a
ser reacionado. Logicamente, como há quase nulos em ambos os lados e
sabemos que o crescimento pode ser maior do que zero, isso implica que,
em algum ponto do centro, exista pelo menos um pico ou ótimo. A dúvida
sobre a unicidade do ponto de máximo ainda não foi plenamente resolvida
pela comunidade científica, todavia, há já inúmeros indícios de que ele
seja realmente único. Diversos estudos, modelos e estatísticas já
revelam que acréscimos na renda da população mais rica acabam por
diminuir a passada da economia (1% de aumento na renda dos 20% mais
ricos, diminuiria o crescimento em pelo menos 0.08% em 5 anos, segundo o
Fundo Monetário Internacional
Depois de estabelecer a forma do gráfico — um “U” invertido ou uma
parábola com concavidade para baixo —, podemos enfim chegar ao
problema da dicotomia Direita e Esquerda. Ambos os lados pecam pois não
otimizam o crescimento econômico — advogando, na realidade, pontos
de nulo como ideais —, seja por ausência de meritocracia ou por
uma indiretamente verificada extrema concentração de renda. No entanto,
o equívoco da Direita é muito mais difícil de perdoar à vista da
realidade: defender o (neo)liberalismo, após conhecidas as estatísticas
aqui discutidas, é nada menos que incentivar o crescimento da pobreza e
fortalecer ainda mais o poder dos ricos
E como, então, mudar o prognóstico econômico mundial para algo mais
saudável? Resumidamente, o primordial é o foco ao mais pragmático, uma
ideologia que primaria pela eficiência e não pela Esquerda ou Direita,
isto é, caso algum dia passemos a estar mais próximos do extremo
esquerdo do gráfico mencionado (e à esquerda do ótimo do gráfico): que
mesmo os políticos supostamente esquerdistas advoguem por menos
distribuição de renda! Não há mais espaço para que aceitemos teorias
equivocadas ou incompletas, formuladas em um passado que não possuía
dados o suficiente para realmente comprová-las