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A Origem dos Cartões

Um menino de 9 anos de idade e sua irmã, de 12, alegres fãs de futebol, vão até a equipe uruguaia pedir autógrafos e se surpreendem com a prontidão nas assinaturas e dedicatórias, algo muito inesperado depois de uma desclassificação da Copa do Mundo de 1966 contra a Alemanha nas quartas de final por 4-0. Sem conseguir entender espanhol, o casal demorou dois dias para encontrar um tradutor e o que se explicitou foi algo ainda mais surpreendente: “o juiz é um ladrão”; ou “criminosos alemães roubaram o jogo do Uruguai”.

Héctor Silva do Uruguai é escoltado para fora de campo, enquanto faz o gesto de roubo, por policiais depois de ter sido expulso das quartas de final da Copa do Mundo contra a Alemanha em Hillsborough.

Foi esse o clima que os ingleses instituíram na recepção das potências futebolísticas da época, especialmente os latinos. Os relatos da má — e, provavelmente, proposital — gestão são inúmeros e não se restringem, entretanto, somente às principais vítimas. Parisienses descreveram o Mundial como “lamentável e deplorável”; os suecos reclamaram muito do tratamento dado aos jornalistas: “esta é a primeira reportagem já escrita por um jornalista dentro de um ninho de rato, eu estou espremido entre duas tábuas e dois brasileiros usando sombreiros amarelos e fumando charutos”. 88 mexicanos tiveram que utilizar a ajuda de suas embaixadas para conseguir acomodações, depois de terem sido ludibriados por ingleses que falsamente lhes venderam locações de primeira classe. Aparentemente, “dar o golpe” foi algo que aprendemos com os supostos gentlemen.

A saída precoce da badalada seleção brasileira não assustou, todavia, quem vira as partidas, em que repetidas e violentas faltas sobre Pelé o inutilizaram completamente. “Quando eu voltei para o Brasil depois dos jogos da Copa do Mundo de 1966, minha mente não estava em jogar futebol”, disse Pelé. “Os jogos foram uma revelação para mim sobre as condutas antidesportivas e a fraca arbitragem. A Inglaterra ganhou seus jogos naquele ano, mas, na minha opinião, eles não foram o melhor time em campo. Futebol deixou de ser uma arte, parou de trazer multidões pela habilidade dos jogadores, e passou a ser uma guerra”.

Os jogadores Brasileiros, incluindo Pelé, no centro, esperavam treinar originalmente em Bolton’s Burnden Park, mas a grama estava muito alta. Então, os campeões de 1958 e 1962 se mudaram para o campo de Bromwich Street. O Brasil foi desclassificado ainda na fase de grupos depois de perder para Hungria e Portugal.

O desempenho ruim das seleções latinas não se restringe, contudo, a causas dentro de campo. Tanto a Argentina quanto o Brasil tinham que fazer longas jornadas para chegar aos respectivos centros de treinamento, muito devido à contratação de motoristas não locais. O Brasil teve, inclusive, que mudar de local de treinamento inicialmente, pois a grama do campo não havia sido aparada; enquanto que a Argentina foi obrigada a chamar um carpinteiro para montar gols apropriados. O absurdo chegou a tal ponto que, pouco antes do início da fase eliminatória, os ingleses tentaram impor testes de doping às seleções, criados e aplicados por médicos locais. Além de indignação sobre os testes, isso até gerou dúvidas em relação ao consumo de substâncias banais, como o café: Carlos Nascimento, no comando da comissão técinca, declarou “na nossa opinião, chá é muito mais estimulante do que café e, se nós formos proibidos de tomá-lo, seria justo que a equipe inglesa fosse proibida de tomar seu chá”.

Um dos motivos de todas essas polêmicas terem caído um pouco no esquecimento ou serem difíceis de se provar é o escudo midiático imposto pela organização inglesa. Em uma era na qual fãs não viajavam tanto aos torneios, a cobertura pelos jornais era de suma importância para a percepção popular e, sabendo disso, os organizadores (ingleses) resolveram distorcer a proporção de jornalistas para garantir um viés positivo aos anfitriões. Seriam garantidos aos estrangeiros dois jornalistas por partida, enquanto 14 ingleses teriam os mesmos direitos — a justificativa era que um maior número aos estrangeiros seria impossível de ser administrado. A discriminação causou muito distúrbio na mídia e nas vias diplomáticas, e acabou por minimizar drasticamente o incidente internacional que gerou uma rivalidade histórica e inspirou a criação dos cartões às infrações: as quartas de final entre Inglaterra e Argentina.

Denominado pelos argentinos como o roubo do século, a partida foi arbitrada por um alemão, Rudolf Kreitlein — supostamente, os alemães e ingleses teriam feito um complô com os ingleses para desclassificar os outros times; curioso que os dois países suspeitos tenham se encontrado na final, e juízes de ambas as nacionalidades tenham arbitrado a quase totalidade das partidas dos latinos —, caracterizado pelo escritor esportivo inglês britânico como “um homem pequeno, trotando ostentosamente pelo campo, com uma careca marrom brilhando sob o sol, enquanto colocava nomes e mais nomes argentinos em seu caderno de notas. Lembrava-nos um guarda de trânsito, anotando placa atrás de placa em seu caderninho”. Pouco depois de um gol duvidoso (aos 12 minutos do primeiro tempo) — impedido, na opinião dos argentinos —, aos 35 minutos do primeiro tempo, Rudolf expulsa o capitão argentino, Antonio Rattín, após um segundo aviso e argumentos desesperados sobre a injustiça do ato. Rattín apontava para sua braçadeira e fazia sinais de pedido de tradução, mas Kreitlein entendeu que retórica em espanhol era sinônimo de “violência verbal”. A indignação foi tamanha que o juiz foi forçado a sair escoltado; além de o vice-presidente da FIFA, Harry Cavan, receber cuspes do atacante Ermindo Onega, um jogador argentino ter urinado no túnel de entrada ao campo, e uma cadeira ter sido jogada no vestiário inglês. O técnico inglês, Alf Ramsey, depois das atitudes dos adversários, proibiu seus jogadores de trocar camisetas, “George, você não vai trocar camisetas com aquele animal”.

O técnico inglês Alf Ramsey tenta prevenir que George Cohen troque camisas com o jogador argentino depois do jogo polêmico nas quartas de final em Wembley, em que a Inglaterra venceu por 1-0.

Outros testemunhos menos enviesados também defendem os argentinos. Por exemplo, Eusébio, craque português, disse: “O juiz parecia estar sempre enxergando o pior das faltas dos argentinos. Ele simplesmente não conseguia ver as faltas dos ingleses”. O jornal italiano Il Messaggero colocou em sua manchete “Escândalo em Londres — favoritismo demais para a Inglaterra” e descreveu a expulsão de Rattín como “uma injustiça colossal que ofende a essência do esporte” e que “garantiu à equipe inglesa um fervoroso e definitivo rancor de todos aqueles que não estão cegos por fanatismo”.

Policiais escoltam o árbitro alemão Rudolf Kreitlein do campo de Wembley no final do jogo. “Mais do que uma partida de futebol: um incidente internacional”, escreveu Hugh McIlvaney para o jornal inglês Observer.
Antonio Rattín, capitão argentino, é expulso da partida.

Após a partida histórica, a comoção popular foi tamanha que, tanto no Uruguai quanto na Argentina, embaixadas britânicas foram atacadas por multidões, e a Associação Argentina de Futebol cogitava publicamente sair da FIFA. Até mesmo o lutador de boxe Horacio Accavallo desmarcou sua defesa de título contra o inglês Walter McGowan, replicando: “O que a Inglaterra fez com o futebol não tem nome. Se McGowan quer lutar contra mim, que ele venha até aqui”. Enquanto a equipe argentina era recebida em casa como os verdadeiros campeões, os ingleses pensavam até mesmo em pagar alguma celebridade para escrever artigos em sua defesa – o que foi impossibilitado, pois, segundo os próprios ingleses, não havia ninguém passível de compra depois de tal vergonhosa atuação; os britânicos optaram por se silenciar, esperando a tempestade passar.

Com a vivência de tal trauma, o supervisor de arbitragem do desastre diplomático — que, inclusive, tentou apaziguar a fúria de Rattín, mas só conseguiu instigá-la ainda mais —, Ken Aston, começou a refletir sobre uma possível solução para o problema das punições no futebol. Até então, elas eram dadas oralmente e causavam grandes problemas devido às barreiras linguísticas — muitas vezes, o jogador só sabia que havia sido punido através de jornais, dias depois. A inspiração para resolver o problema veio de um semáforo, a luz amarela ilustraria uma advertência, e a vermelha, uma parada imediata, uma codificação por cores padronizada praticamente no mundo inteiro. Em 1970, na Copa do Mundo do México, pela primeira vez até então, o sistema foi utilizado, obtendo muito sucesso e permanecendo até hoje, uma solução simples ajudando a evitar a máxima do renomado diplomata britânico Sir Patrick Fairweather: “a Copa do Mundo da Inglaterra de 1966 proporcionou ainda mais provas de que uma excelente maneira de se danificar as relações internacionais é sediar grandes eventos esportivos”.

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Arbitragem tragicômica de Rudolf Kreitlein.

Referências: