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Sunjang Baduk

Ao longo da história, diversas variantes de Go foram jogadas, inclusive, até aproximadamente o século VII, o tamanho mais utilizado de tabuleiros era o 17×17, que ainda é utilizado no Tibete. A Coreia não foi um caso diferente, apesar de que não se sabe exatamente quando Sunjang Baduk (순장바둑) realmente apareceu, estima-se que sua proliferação tenha ocorrido no século XVI.

A origem do nome Sunjang é um pouco obscura e, aparentemente, seria relacionada com hierarquia militar, uma característica muito forte da sociedade coreana da época, e também atual. A documentação bastante escassa da modalidade, ainda que haja diversas histórias relacionadas ao assunto — como a dos generais Kangjo e Choi Chunghun que jogavam partidas antes das batalhas —, e o fato de que a introdução das regras japonesas durante o período imperial japonês no século XX praticamente anulou o prestígio dessa variante dificultam muito a pesquisa factual sobre o assunto. Pessoalmente, eu mesmo experienciei tal fenômeno: quando estive na Coreia do Sul, poucos nativos sabiam me apontar para algum registro sobre o assunto; a minha impressão foi a de que os coreanos apagaram inconscientemente esse registro da cultura nacional.

Outro aspecto que complica as coisas é algo análogo ao que aconteceu com o xadrez coreano. Sem uma instituição padronizadora, variantes locais eram muito comuns e diferenças consideráveis nas regras podem ser observadas.

Hoje, Sunjang Baduk é nada mais do que uma lembrança de tempos esquecidos e obscuros para os coreanos, e, por isso, talvez, uma curiosidade para os estrangeiros.

Após essa breve introdução ao contexto histórico que levou ao desenvolvimento de tal variante, vejamos finalmente como ela é jogada na prática.

O início da partida é dado com Preto e Branco — com uma sequência específica, assim como nas partidas com pedras de compensação em regras japonesas; mas essa ordem se perdeu ao longo da história: utilizo aqui a ordem citada no apêndice — colocando 16 pedras em uma formação alternada e simétrica até que Preto faz o primeiro movimento obrigatoriamente no tengen ou centro do tabuleiro. A rigor, portanto, quem começa a partida é, na verdade, Preto.

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Essa configuração inicial leva a partidas bastante violentas, devido ao grande número de grupos fracos para ambos os lados. Essa luta intrínseca, segundo alguns historiadores, foi um dos principais fatores que levou o Go coreano a focar tanto nas lutas e nos detalhes dos problemas de vida e morte (tsumego); além disso, ela também facilitou a implementação de uma metodologia de apostas, o Bang Neki ou Bang Naegi (방내기).

A maior diferença entre Sunjang Baduk e outras modalidades está, certamente, nas regras de contagem. Nela, além das capturas, pedras denominadas redundantes na delimitação das fronteiras do território são retiradas do tabuleiro para se obter a contagem, o que pode levar a grandes diferenças a depender de qual dame cada jogador tomar. Veja o diagrama SGF abaixo para maiores esclarecimentos (há, por vezes, alguns problemas com a visualização desses arquivos, sugiro baixá-los e vê-los por um editor):

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Até a introdução das regras japonesas, Sunjang Baduk não possuía o conceito de komi, ou seja, o jogador mais forte sempre jogava com as Brancas. Depois de estudos feitos por profissionais japoneses sobre o movimento preto inicial no tengen, conclui-se que essa jogada, como inicial, equivaleria, ao final, a, aproximadamente, 3 pontos; ou seja, insuficiente para compensar o komi; o que levou a se cogitar algo semelhante para o Sunjang Baduk. Sendo assim, presume-se que Branco tenha, na realidade, uma vantagem a priori.

Por fim, temos as regras de compensação. Novamente, é um assunto obscuro, mas sabe-se que pedras pretas seriam postas nos pontos simétricos remanescentes e Branco tomaria o tengen, além de também começar, vide os exemplos abaixo:

Partida com 5 pedras de compensação, isto é, 6 pedras pretas adicionais, Branco no tengen e começando:

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Agora, com 4 pedras de compensação somente:

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Como já discutido, a documentação de Sunjang Baduk é bastante escassa, não há muitos registros de partidas facilmente disponíveis. O maior banco de dados disponível de jogos de Go, o GoGoD, gerenciado pelo historiador de Go e de outros temas da cultura asiática, John Fairbairn, possui 14 partidas, sendo a mais velha datada de 1899 e composta de somente 31 movimentos. Eu gostaria de divulgar todas as partidas aqui, no entanto, devido a problemas de direitos autorais, só poderei divulgar 3 partidas que são encontradas em sites públicos na internet.

A primeira partida é entre Chae Keukmun (채 극문) e Jeong Kyuchun (정 규춘), realizada em 28/01/1934, patrocinada pelo jornal Chosun Ilbo.

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A segunda partida é entre No Sacho (노 사초) e Chae Keukmun (채 극문) realizada em 23/03/1937, também patrocinada pelo Chosun Ilbo. Note um padrão aqui: aparentemente, já havia influência japonesa suficiente para enviesar os movimentos. Há uma tendência para jogadas que possuem, intrinsicamente, boas formas, algo notável do Go japonês da época.

Uma curiosidade é que No Sacho foi, durante um bom tempo, o Kuksu ou Mestre Nacional do Sunjang Baduk da Coreia, seria como o título de Meijin do Japão.

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A terceira partida é bem mais atual, entre Cho Namcheol (조 남철) 9p e Lee Changho (이 창호) 7p, realizada em 06/10/1995. Para quem não os conhece, Cho Namcheol é reverenciado como o fundador do Go coreano moderno, ele foi insei de Kitani Minoru 7p a partir de 1937 e, quando voltou para a Coreia, fundou a Hanguk Kiwon, a associação coreana de Go; e Lee Changho, conhecido por seu estilo passivo, é um dos jogadores mais condecorados da história, dominando a cena internacional na década de 1990. Veja que a partida já toma contornos mais típicos do Go coreano, com muita atenção às formas típicas das lutas. Esse jogo é citado tanto pelo site coreano Cyberoro quanto 101weiqi.

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Como um pequeno adicional, registro aqui ainda uma partida entre IAs, ELF versus ELF, a IA mais forte da atualidade. Interessante notar que ELF não pensa que o movimento inicial preto no tengen é tão ruim nesse caso, há apenas uma perda de 1%. Vale ressaltar também o quão valioso é o contato no 3-4 (komoku) abaixo do 4-4 (hoshi) adversário, ambos os lados procuram essa jogada quando podem, algo confirmado pela Leela Zero e a PhoenixGo também. A porcentagem de vitória para as Pretas também não muda quase nada em relação a um início sem pedras, começando em 46%. Também deixo aqui disponível uma análise de partida feita pela Leela Zero () através do programa Go Review Partner.

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Em minha estadia na Coreia do Sul, acabei tendo uma aula na universidade com um professional chinês que explicou para os outros alunos chineses o que era Sunjang Baduk. Apesar de não entender quase nada, eu havia feito amizade com um outro profissional chinês, Chen Bisen 2p, que me traduzia o que podia. Ele me confessou que as explicações não estavam exatamente claras, mas eu já sabia um pouco sobre Sunjang Baduk, então não foi tão difícil de acompanhar. Ao final da aula, o professor fez os alunos profissionais jogarem entre si, e os outros, a assistirem. Chen Bisen jogou contra uma profissional, também jovem, cujo primeiro nome é Sun — não me lembro de seu nome completo. Eu pude registrar a partida no meu celular e a compartilho aqui — apesar de a partida terminar com um movimento branco, Preto, i.e., Chen Bisen 2p, vence, devido à dificuldade em sobreviver com o dragão branco à direita. Além dela, também compartilho imagens do material em chinês que o professor havia preparado para nós.

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