Collection Littéraire L&M Parte II — Como entrar para a Academia Francesa
O texto a seguir foi o que me convenceu a comprar o livro, é um trecho de uma peça de comédia de um dos cômicos franceses mais icônicos, Tristan Bernard. Ele foi bem famoso também por suas tiradas… aqui vão muitas delas (algumas vêm de seus personagens):
- Deus criou o mundo, mas é o diabo que o gerencia.
- Eu sou um contemplador fervoroso do esforço alheio.
- É curioso como o dinheiro ajuda a suportar a pobreza!
- Homens dão sua confiança imediatamente, mas nunca seu dinheiro.
- Eu estou em uma idade em que não se dá a mínima se formos cornos, mas, sim, se formos pregados.
- Como ele tem o pescoço muito curto, parece sempre estar levantando os ombros.
- A ajuda mais eficaz para um inspetor de polícia é o azar.
- Há somente um prazer maior do que o de se lavar: o de não se lavar.
- O traje do acadêmico custa muito caro, caro demais, espero que um deles que tenha o meu tamanho morra.
- O remorso é o melhor estimulante para não se fazer nada.
- Ah! queria eu ser rico, para poder vir à ajuda do pobre que sou!
- Mais vale não refletir de todo do que refletir demais.
- Vários divórcios nascem de um mal-entendido, vários casamentos também.
- Não há crianças tolas: somente adultos tolos.
- Homens são sempre sinceros. Eles só mudam o destino de suas sinceridades, só isso.
- Se não somos ricos o suficiente para comprar a felicidade, não devemos observá-la pela vitrine de uma loja.
- Um crítico é um virgem que ensinaria Don Juan como fazer amor.
- Para vivermos felizes com outros, nós devemos pedir somente o que eles podem dar.
- Pegue dinheiro emprestado de pessimistas. Eles sabem que não vão conseguir o dinheiro de volta tão cedo.
- Você só pode confiar em si mesmo. E, mesmo isso, eu não aconselho.
- Se sua esposa ri das suas piadas, ou a piada é boa, ou sua esposa é.
- Falência é um processo legal em que você põe o dinheiro nas calças e dá o paletó para os credores.
Fique agora com a descrição contida no livro e o texto principal, um trecho de L’Habit Vert ou O Traje Verde, uma sátira à instituição que jamais o acolheria:
Un humoriste: Tristan Bernard
Avocat, journaliste, industriel, poète, romancier, auteur dramatique, Tristan Bernard (1866 – 1947) fut surtout un humoriste. On cite de lui une foule de bons mots, et c’est l’humour qui fait le charme de ses romans (Mémoires d’un Jeune Homme Rangé, Amants et Voleurs, Le Mari pacifique) comme de ses pièces en un, trois ou cinq actes, depuis Les Pieds nickelés (1895) jusqu’à Jules, Juliette et Julien (1929).
Aucune monotonie d’ailleurs dans ce théâtre qui compte parmi ses réussites un court vaudeville resté au répertoire, L’Anglais tel qu’on le parle (1899); une parodie «tragi-comique», L’Étrangleuse (1908); une amusante reprise du thème éternel des Ménechmes, Les Jumeaux de Brighton (1908); ou une comédie de caractère comme Monsieur Codomat (1907). Ce dernier aspect apparaissait déjà, en 1905, dans Triplepatte (en collaboration avec André Godfernaux); cette comédie de l’indécision unit sans disparate l’esprit, la fantaisie et la satire légère à une sympathie compréhensive, presque attendrie.
Le duc de Maulévrier, de l’Académie Française, a surpris le comte Hubert de Latour-Latour aux genoux de la duchesse. Mais celle-ci a une inspiration géniale: le comte la suppliait d’intervenir auprès de son mari pour que celui-ci appuie sa candidature à l’Académie! Voilà les deux amants sauvés, mais Hubert qui n’a rien ou presque rien écrit, ne saurait prendre au sérieux cette prétendue candidature. Tel n’est pas l’avis de La Duchesse; or, sa force de persuasion est grande si son langage savoureux demeure approximatif (elle est américaine); elle ne tardera donc pas à convaincre Hubert.
Hubert: Moi, à l’Académie! Cette candidature qui tombe du ciel, à laquelle personne pouvait s’attendre, moi surtout! C’est un affaire à me faire fiche de moi par tout Paris. Et, au Jockey, je n’oserai pas y reparaître. Ils vont me prendre pour un homme de lettres. C’est extrêmement désagréable. Ah! je suis joli… je suis joli…
La Duchesse: Ne soyez pas énervé.
H: Je serai blackboulé comme à mon baccalauréat!
LD: Que dites-vous? Ce n’est pas pareil. Pour le baccalauréat, on demande de savoir certaines choses…
H: Voyons, je n’ai pas l’ombre d’une chance.
LD: Vous avez. Je connais cette commerce. Je sais si bien comment se dévideront les choses…
H: Vous savez?…
LD: Sitôt votre nom jeté, les gens s’habitueront très vite, et vous encore plus vite… Alors, vous mettrez vos gants, et vous commencerez les courses… je veux dire les visites. Partout, vous serez accueilli très bien.
H, s’adoucissant: Vous croyez?
LD: Oui, parce que vous avez une bon figure. Cela est très rare, un candidat qui a une bon figure… Vous, vous sourirez dès le concierge… dès le valet qui ouvrira la porte… Vous aurez tout de suite les domestiques dans votre parti, cela est important.
H: Et après… après?
LD: Hubert, je sens: vous êtes mordu!
H: Je ne suis pas mordu, mais, enfin… continuez, continuez.
LD: Après, on vous fera entrer dans le cabinet de l’académicien…
H: Et qu’est-ce que je lui dirai, à l’académicien?…
LD: Rien du tout… Je vous connais, Hubert! Vous ne lui direz aucune chose… aucun mot… Alors, il parlera constamment de lui, et, quand vous quitterez, il pensera: « Quel charmant causeur! »
H, modestement: Oh! Il est trop gentil!
LD: Ainsi, à force de visites, de bonnes figures et de silence, vos chances feront des petits. Le soir, nous marquerons des pointages et, alors, vous commencerez de penser à votre bel habit vert.
H: L’habit?
LD: Au chapeau avec ses petites plumes frisées.
H: Le chapeau!
LD: Et à la poignée de l’épée!
H: L’épée!
LD: Enfin, un jeudi, vers une heure, vous serez dans un coin d’un petit café sur la rive gauche, blotti dans l’anxiété, attendant les résultats… A la table, à côté, je suis sûre, il y aura des petits bourgeois du quartier qui joueront les dominos et vous les regarderez stupéfait… que des gens puissent jouer les dominos dans un tel jour… Des amis feront la navette pour vous… Ils porteront les nouvelles. Premier tour: huit voix. Deuxième tour: dix voix…
H, qui prend part: Oui…
LD: Troisième tour: neuf voix.
H: Pourquoi?
LD: Parce que toujours il y a un ami qui vous lâche.
H, indigné: Je saurai qui c’est!…
LD: Quatrième tour: treize voix. Cinquième tour: dix-sept. Élu..
H: Élu!…
LD: Tout bêtement… Et, en cette moment-là, vous aurez beau faire le superbe, vous ne sourirez plus et vous penserez tout d’un coup à des choses très simples, très touchantes, un peu rococo, à votre enfance, à votre vieux maison… à votre vieux maman… et vous serez très émute; moi, je suis déjà!
Effectivement, Hubert endossera l’habit vert. Mais le jour de sa réception, une de ses lettres d’amour à la duchesse se glisse parmi les feuillets du discours que le duc doit prononcer pour l’accueillir sous la coupole: on imagine le scandale! Pourtant tout s’arrange grâce à la mansuétude de l’offensé et aux bons offices… de Président de la République. Hubert épousera sa secrétaire, filleule du Président, tandis que la duchesse s’éprend… de son mari.
Um humorista: Tristan Bernard
Advogado, jornalista, industrial, poeta, romancista, autor de dramas, Tristan Bernard (1866 – 1947) foi sobretudo um humorista. Citam-se dele uma centena de tiradas, e é o humor que faz o charme de seus romances (Memória de um Jovem Arranjado, Amantes e Ladrões, O Marido pacífico), assim como de suas peças em um, três ou cinco atos, desde Os Pés Niquelados (1895) até Júlio, Julieta e Juliano (1929).
Nenhuma monotonia, aliás, neste teatro que conta, dentre seus sucessos, um vaudeville remanescente ao repertório, O Inglês da maneira que se fala (1899); uma paródia “tragicômica”, A Estranguladora (1908); uma divertida reprise do tema de Menêxeno, Os Gêmeos de Brighton (1908); ou uma comédia de personalismos como Senhor Codomat (1907). Este último aspecto aparecia já em 1905, em Triplepatte (em colaboração com André Godfernaux); esta comédia da indecisão uniu sem disparate o espírito, a fantasia e a sátira leve à uma simpatia compreensiva, quase tenra.
O duque de Maulévrier (“Mau Galgo”, galgo é uma raça de cachorro), da Academia Francesa, surpreendeu o conde Hubert de Latour-Latour (“Latour” significa “a torre”) aos joelhos da duquesa. Mas esta tem uma inspiração genial: o conde suplicava sua intervenção junto a seu marido para que ele apoiasse sua candidatura à Academia! Eis aqui os dois amantes salvos, mas Hubert que nunca escreveu nada ou quase nada, não saberia levar a sério essa candidatura fingida. Tal não é a opinião da Duquesa; sua força de persuasão é, contudo, grande, apesar de que sua saborosa linguagem seja aproximada (ela é americana); ela não tardará, pois, a convencer Hubert.
Hubert: Eu, na Academia! Essa candidatura que cai do céu, que ninguém esperava, ainda mais eu! Ninguém vai parar de me atazanar por toda Paris. E, no Jóquei, eu não ousarei reaparecer. Eles vão achar que eu sou um homem das letras. É extremamente desagradável. Ah! Eu sou bonito… eu sou bonito…
A Duquesa: Não se enerve.
H: Eu ficarei marcado como no meu bacharelado!
AD: O que é que você está dizendo? Não é nada parecido. No bacharelado, pede-se que saibemos certas coisas…
H: Sejamos sensatos, eu não tenho nem uma mísera chance.
AD: Você tem sim. Eu conheço essas tramas. Eu sei bem como as coisas se desenrolarão…
H: Você sabe?…
AD: Assim que o seu nome for cogitado, as pessoas se habituarão muito rápido, e você, ainda mais… Então, você colocará suas luvas e começará as suas compras… digo, as suas visitas. Em todo lugar, você será muito bem acolhido.
H, menos afoito: Você acredita?
AD: Sim, porque você tem uma bom aparência. Isso é muito raro, um candidato que tem uma bom aparência… Você, você sorrirá desde a entrada… desde o valet que abrirá a porta… Você terá logo em seguida as domésticas no seu partido, isso é importante.
H: E depois… depois?
AD: Hubert, você está mordido!
H: Eu não estou mordido, mas, enfim… continue, continue.
AD: Depois, farão com que você entre no gabinete do acadêmico…
H: E o que é que eu lhe direi, ao acadêmico?…
AD: Nada… Eu o conheço, Hubert! Você não lhe dirá nada… nenhuma palavra… Aí, ele vai falar sem parar de si mesmo, e, quando você for embora, ele vai pensar: “Mas que conversador charmoso!”
H, modestamente: Oh! Mas ele é muito bonzinho!
AD: Assim, à força de visitas, boa aparência e silêncio, suas chances crescerão aos pouquinhos. À noite, nós faremos um plano, e, então, você começará a pensar em seu belo traje verde.
H: Traje?
AD: No chapéu com pequenas plumas frisadas.
H: O chapéu!
AD: E no cabo da espada!
H: A espada!
AD: Enfim, em uma quinta-feira, perto da uma hora, você estará em um canto de um pequeno café na margem esquerda, consumido pela ansiedade, esperando os resultados… Na mesa, ao lado, tenho certeza, haverá pequenos burgueses do bairro que jogarão dominó e você os olhará espantado… que pessoas possam jogar dominó em tal dia… Amigos lhe manterão informado… Eles trarão as novas. Primeira rodada: oito votos. Segunda rodada: dez votos…
H, que entra na brincadeira: Sim…
AD: Terceira rodada: nove votos.
H: Por quê?
AD: Pois sempre há um amigo que nos abandona.
H, indignado: Eu saberei quem será!
AD: Quarta rodada: treze votos. Quinta rodada: dezessete. Eleito…
H: Eleito!…
AD: Todo atordoado… E, naquela momento, será em vão se fazer de magnífico, você não sorrirá mais e pensará repentinamente a coisas muito simples, muito tocantes, um pouco rococó, à sua infância, ao seu velho casa… ao seu velho mãe… e você estará muito comovida; eu certamente já estou!
De fato, Hubert vestirá o traje verde. Mas, no dia de sua recepção, uma de suas cartas de amor à duquesa se mistura aos cartões do discurso que o duque deverá pronunciar para acolhê-lo na cúpula: imagine o escândalo! No entanto, tudo se arranja graças à complacência do ofendido e à mediação… do Presidente da República. Hubert casar-se-á com sua secretária, afiliada do Presidente, enquanto que a duquesa apaixonar-se-á… por seu marido.